Cinema

Cuidado além da tela

Foto: Victo Jucá/Divulgação

Foto: Victo Jucá/Divulgação

É quase impossível subir a escada da esquerda na Fundação Joaquim Nabuco no Derby numa sexta ou sábado à noite e não encontrar uma fila lotando todo o corredor superior do prédio, incluindo o café perto da entrada da sala. O que leva essa pequena multidão até o espaço? Um cinema de apenas 197 confortáveis poltronas e sua programação de qualidade, que já conquistou o coração dos recifenses.

A Sala José Carlos Cavalcanti Borges, nome formal do espaço, já foi teatro, espaço para apresentações musicais e também casa de um cineclube: o Jurando Vingar. Um dos membros do grupo, o cineasta Kleber Mendonça Filho, é hoje um dos curadores da programação e a metade responsável pela qualidade do que vem sendo exibido no Cinema da Fundação e do sucesso decorrente a isso.

Convidado por Silvana Meirelles, então na época superintendente do Instituto de Cultura (hoje a mesma é diretora da MECA), Kleber começou a criar uma política de exibição formadora de público. A estreia aconteceu na chuvosa noite de 23 de maio de 1998 com a exibição de Bent, de Sean Mathias, para 28 pagantes.

“Sem esses filmes nosso trabalho aqui não existiria” afirma Luiz Joaquim, crítico e jornalista, que junto com Kleber é um dos responsáveis pela curadoria dos filmes exibidos no Cinema da Fundação.

Luiz trabalha no Cinema da Fundação propriamente desde 2001 (foi estagiário do cinema em 1998), estando desde o início da gestão de Kleber. “No início era pouco frequentado” relata, “Mas depois de um forte trabalho de divulgação conseguimos aumentar nosso público. Em 2002 já tínhamos o dobro de público do ano anterior”.

Cinema da Fundação antes da reforma

Cinema da Fundação antes da reforma

A proposta do Cinema da Fundação são filmes fora do circuito, filmes “inteligentes”. Segundo Joaquim essa foi a principal condição de Kleber na hora de aceitar assumir a programação do cinema. “O conceito estava pronto antes mesmo da concretização do cinema” conta Joaquim.

“O Cinema da Fundação sempre teve um trabalho diferenciado de programação, sob longa curadoria de Kleber Mendonça Filho e Luiz Joaquim, que são especialistas e conhecedores de cinema. O público do cinema tornou-se mais fiel e cresceu bastante, resultado de lento trabalho de formação de público por anos, como o Rosa e Silva também faz. Isso comprova que o público tem tendência natural a consumir outras cinematografias quando isso é oferecido” contextualiza Fernando Vasconcelos, crítico de cinema e criador do Kinemail.

O segredo da qualidade da programação da Fundação está na experiência dos dois curadores que montam a programação e na boa relação com as distribuidoras. Construída a duras penas, vale salientar. “Hoje nossa relação com as distribuidoras é ótima, mas em 98 era difícil. Elas olhavam com desconfiança um espaço tão pequeno querendo exibir seus filmes, mas fomos ganhando confiança aos poucos” conta Luiz Joaquim.

O retorno do público ao trabalho dos curadores vem obtendo um ótimo retorno e o resultado é refletido no aumento do público (em 2011 o cinema atingiu o recorde de 62 mil espectadores num ano), se tornou referência para outras salas que buscam um perfil diferenciado de programação e palco de bons eventos como o Festival Janela Internacional de Cinema e o Varilux de Cinema Francês.

O espaço também serve de inspiração para outras salas no Brasil, incluindo o Cine Dragão do Mar, em Forteleza, onde o cinema da Fundação é parceiro e os jovens curadores de lá, Salomão Santana e Pedro Azevedo, vem sendo elogiado.

Sessão pipoca

Cinema São Luiz (Foto: Rafa Medeiros/Fundarpe/Divulgação)

Cinema São Luiz (Foto: Rafa Medeiros/Fundarpe/Divulgação)

A região metropolitana tem 8 shopping e está na iminência de ganhar mais três: em Camaragibe, Paulista e Olinda. Apenas um desses que já funcionam não tem um cinema, o Paço Alfândega. Sendo assim o público pernambuco tem muitas opções na hora de assistir blockbuster como X-Men, alguma comédia romântica com uma atriz famosa (e loira) ou a décima quinta adaptação de uma sucesso literário infanto-juvenil escrito numa quadrilogia. Com o último volume dividido em duas partes, claro.

Mas e o que acontece quando o público quer um filme pensado para atingir o coração de quem assisti?

“Cinemas como o da Fundação, o Rosa & Silva e o Cinema São Luiz procuram oferecer uma programação mais variada, sem o padrão rolo compressor dos multiplexes que, ironicamente, com muitas salas exibem poucos filmes” afirma Fernando.

Sobre essa diferença entre entre os grandes multiplex e as salas de rua, o mestrando em Cinema André Antônio aponta, além da própria programação, o conforto como um fator importante: “É um saco ter que pagar estacionamento e subir três andares e andar por corredores com um monte de lojas quando você só queria era ver um filme. Fora que cinemas de rua têm um charme próprio, geralmente um café agradável” conta.

Mas salas em Centros comerciais nem sempre é formada exclusivamente de comédias brasileiras produzidas pela Globo Filmes e grandes produções hollywoodianas. O ETC, um grande empresarial que fica nos Aflitos, é a casa do Cine Rosa & Silva, que traz uma programação competente que consegue balancear bons filmes com uma programação normal que existe em todo shopping.

O cinema, que existe há 10 anos, foi comprado há pouco mais de dois anos por Paulo e Cristina Menelau. “O cinema existe há mais de uma década e sempre trouxe filmes fora do circuito, como os franceses. Com a direção do Paulo esse tipo de programação foi intensificada” explica Cristina.

Outro equipamento que vem sendo usado para trazer de volta ao público um cinema de qualidade (principalmente com produções locais e brasileiras), com um toque comercial, é o São Luiz. Depois de ser fechado pelo Grupo Severino Luiz, essa jóia no coração do Recife foi reaberta pelo governo do Estado, que trouxe Lula Cardoso Ayres Filho (um grande cinéfilo brasileiro) para promover um novo conceito para o cinema. A sala agora é administrada pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) desde 2011 e tombada pela mesma desde 2008 com a boa programação sendo feita por Geraldo Pinho.

Reabertura do Cinema São Luiz (Foto: Rafa Medeiros/Fundarpe/Divulgação)

Reabertura do Cinema São Luiz (Foto: Rafa Medeiros/Fundarpe/Divulgação)

Assistir a um filme num cinema como o São Luiz é uma experiência a parte. Memórias afetivas e bons filmes ainda vivem no coração de quem sentou naquelas poltronas, admirou a beleza dos vitrais e o frio na barriga do início de um filme especial. É um desafio achar um pernambucano que não tenha uma lembrança especial do cinema.

O cinema também é parte essencial de um evento que já é um marco no calendário de acontecimentos culturais da cidade: O Janela Internacional de Cinema do Recife. Uma verdadeira salvação para o festival, que não precisa acontecer num multiplex e conta com a beleza e o equipamento do São Luiz ao seu dispor, além de seus 900 assentos.

O próprio cinema da Fundação faz parte da trajetória cinematográfica de muita gente. André Antônio conta também que frequenta o cinema desde o Ensino Médio. “Eu tinha me apaixonado por arte nas aulas de literatura da escola e prestei vestibular pra jornalismo pensando em ser crítico cultural de jornal. A Fundaj foi naturalmente, então, um dos lugares que passei a frequentar. Pra mim é um lugar que está totalmente relacionado a uma espécie de educação e formação do meu olhar para o mundo contemporâneo ao redor. Lá eu conheci diretores atuais que revelavam coisas que estavam na minha frente o tempo inteiro e eu não conseguia “ver”: Gus Van Sant, Sofia Coppola, Karim Ainouz, Todd Haynes, Wong Kar-Wai e Philippe Garrel” relembra.

Memoráveis

Qual filme você assistiu no cinema e te marcou pra sempre? Há dezenas de filmes que fazem parte da história do Cinema da Fundação. Luiz Joaquim cita alguns:

Sucesso de público: “Todos do Lars Von Trier, como Dogville e Dançando no Escuro. O primeiro filme do Haneke exibido no Recife, “Funny Games” (1997) também fez muito sucesso. “E tuas mãe também”, “Irreversível”, “Melancolia” e “Lavoura Arcaica” também chamaram atenção do público do cinema.

Orgulho: Um dos filmes que eu mais tenho orgulho de ter exibido na Fundação é ‘Hedwig: Rock, Amor e Traição’. O filme ainda não havia sido lançado no Rio ou em São Paulo e o público que veio assistir não sabia o que tinha pela frente. Deu errado no quesito sucesso de público, mas valeu a pena, é um filme incrível.

A lista ainda vai além: “Exibir filmes pernambucanos é um orgulho enorme para o Cinema da Fundação. Também foi muito legal conseguir exibir cópias restauradas de ‘Dona Flor & Seus Dois Maridos e’ A Hora da Estrela, inclusive com a presença da Marcélia Cartaxo, protagonista do filme”.

Volta fez uma lista de reprodução especial no Youtube com os principais filmes que já foram exibidos no Cinema da Fundação. Assista abaixo 😉

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Um comentário sobre “Cuidado além da tela

  1. Adoooorei Carlos! gente, que legal. Eu confesso que não sabia muito da história do cinema da fundação. Eu passei a frequentar por volta de 2009, quando entrei na faculdade (foi quando me abri mais em questão de espaço e pessoas). Que iniciativa foda! favoritei o site pra minha vida aqui. esse foi o primeiro texto que li, vou ler todos! ❤

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